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Interatividade na TV Digital: questão técnica, política ou de jogo de mercado?

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Quase 4 anos depois do início das transmissões de sinal de TV Digital aberta no Brasil, a discussão sobre a interatividade ainda permanece em pauta como um assunto incômodo a ser resolvido.

O Decreto 5.820, que a Presidência da República publicou em junho de 2006 criando o Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T), estabelecia em seu artigo 6º que o mesmo deveria possibilitar: I – transmissão digital em alta definição (HDTV) e em definição padrão (SDTV); II – transmissão digital simultânea para recepção fixa, móvel e portátil; e III – interatividade.

Está muito claro no decreto que a adoção do SBTVD-T (ou ISDB-T) compreendia essas 3 características e que pensar a implantação da TV Digital apenas com alta definição ou mobilidade tornaria esse processo incompleto.

Como já se sabe a TV Digital, salvo pela iniciativa de alguns experimentos como o que foi feito pela Caixa Econômica em São Paulo, começou sem interatividade. Lembro que nessa época cheguei a ler algumas declarações de natureza futurológica sobre essa questão. Para alguns especialistas, tratava-se de uma funcionalidade tecnológica que só seria incorporada ao longo de 10 anos. Existiam também os mais pessimistas que previam que sequer a interatividade chegaria a ser utilizada (talvez por ter deduzido que o brasileiro era um povo pouco interativo e que não gosta de novidades tecnológicas). No outro extremo havia também os excessivamente otimistas, que acreditavam que em 2 anos as coisas estariam resolvidas e que os brasileiros seriam beneficiados com uma série de serviços interativos de cidadania e entretenimento oferecidos pela televisão.

Avanços

Seria injusto não reconhecer que alguns avanços significativos foram conquistados nos últimos anos. No âmbito do Fórum SBTVD-T conseguiu-se resolver questões de patentes, chegar-se a um entendimento para as definições dos perfis do middleware e fazer-se o fechamento da norma técnica para a publicação na ABNT.

Graças a uma bem sucedida ação conjunta entre órgãos do Governo Federal e o Fórum, o padrão nipo-brasileiro expandiu-se para 11 países e ganhou reconhecimento internacional pelas suas inovações. No ano passado a ITU (International Telecommunication Union) reconheceu o Ginga como padrão de middleware para IPTV e assistimos ao surgimento dos primeiros televisores digitais com o selo DTVi (que é utilizado por empresas que são associadas ao Fórum para indicar a aderência ao Ginga) feito pela LG e, em seguida, pela Sony, Philips e Panasonic.

Se o fato de não existirem receptores de sinal de TV Digital com middleware no mercado foi apontado por algum tempo como um dos principais impedimentos para que a interatividade não deslanchasse, hoje não se pode mais usar esse argumento.

Embora não tenhamos números formais por parte da indústria sobre o número de televisores e outros dispositivos DTVIs vendidos desde o ano passado, o fato é que já existe um parque de usuários que podem experimentar essa funcionalidade.

Mas afinal, o uso da interatividade na TV Digital aberta no Brasil é uma questão técnica, política ou de jogo de mercado?

Restrições em todos os campos

É muito fácil para qualquer pessoa que tenha um mínimo de bom senso perceber que se o Ginga ainda não decolou por aqui é devido a um conjunto de fatores impeditivos que não são apenas de ordem técnica, política e de mercado. É a soma de todos esses fatores juntos.

Atribuir somente a indústria de recepção, ou a falta de uma obrigatoriedade para se embarcar o Ginga nos televisores, a culpa pelo pouco que tem sido feito até o momento, é ver as coisas de uma forma fragmentada e simplista.

Se por um lado a academia brasileira deu importantes contribuições para o aprimoramento do ISDB-T, principalmente no que se refere a interatividade, por outro demorou na definição das regras para a transferência das inovações do Ginga para as empresas. Isso inevitavelmente gerou atrasos.

A indústria de software não se preparou e nem se articulou setorialmente de forma adequada para trabalhar com esse tema. As poucas empresas que enxergaram no software para TV Digital uma oportunidade de crescimento, não souberam criar uma sinergia para enfrentar os desafios que viriam pela frente e acabaram se dividindo, entrando em um clima de competição predatória. Faltou união de forças e visão estratégica logo de saída. Isso gerou mais atrasos.

Enquanto o setor de software não se encontrava nesse jogo, problemas como a criação de modelos de negócios atrativos – que justifiquem uma adoção abrangente da interatividade pela indústria e pelas emissoras – e como a garantia da interoperabilidade entre as diversas implementações de middleware, foram crescendo em importância e hoje podem ameaçar – com mais atrasos ainda – o já castigado ecossistema da interatividade.

Apesar de ser favorável à obrigatoriedade de inclusão do Ginga, o que é coerente com o decreto de criação do SBTVD-T, reconheço que se essa iniciativa não fizer parte de estratégias políticas e comerciais consistentes e sustentáveis, o simples fato de uma TV ou um celular ter o recurso de interatividade não justificará o seu uso.

Uma das dificuldades encontradas é que esse é um tema que é tratado hoje quase que exclusivamente pelas áreas técnicas das emissoras ou das empresas de software. Como resultado a maior parte dos aplicativos interativos que estão sendo transmitidos são chatos e repetitivos. Falta o envolvimento de profissionais de outras áreas, como comunicação e publicidade, capazes de criarem conteúdos cada vez mais atrativos para essas novas plataformas.

Hora de agir

Já é mais do que hora de atores importantes como a radiodifusão, o mercado publicitário e o Governo Federal – que apesar de ter investido aproximadamente US$ 27 milhões desde 2005 para desenvolver projetos de TV Interativa, ainda não internalizou o seu uso – decidirem se de fato vão usar as inovações tecnológicas do Ginga e o ambiente de convergência que ela traz. E a melhor forma de fazer isso é experimentando. Colocando em prática.

Mas se no Brasil ainda insistirmos em colocarmos em pauta discussões que tínhamos ainda em 2007, vai restar aos argentinos nos salvar, demonstrando o que pode ser feito com a interatividade. Por lá a TV Digital e o Ginga foram inseridos no contexto do programa de inclusão digital, as universidades estão produzindo diversas pesquisas nessa área e venho acompanhando com entusiasmo o crescimento da produção de conteúdos audiovisuais que já nascem roteirizados para permitir o uso da interatividade.

Mantendo-se esse ritmo, em breve poderemos assistir a palestras dos nossos irmãos argentinos, nos ensinado a como utilizar a tecnologia que criamos.

Inovação

É fácil perceber que o ISDB-T no Brasil precisa andar lado a lado com o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), que está se configurando para ser uma das grandes conquistas do Governo Dilma. Televisão e banda larga são ingredientes que devidamente combinados (conteúdos) podem trazer um salto qualitativo na forma de se fazer e assistir TV no país, e tornar o uso da interatividade uma experiência mais rica e completa.

Discordo do ponto de vista dos que acham que a inovação tecnológica pode ser comparada a um vinho, que precisa esperar um longo processo de maturação para ser apreciado. A verdade é que toda inovação tem uma janela de tempo, que é cada vez menor nesse mundo globalizado e competitivo em que vivemos.

Independente de termos o Ginga, a convergência na TV é uma tendência que está crescendo com muita força em todo o mundo e as Connected TVs vão ocupar um espaço de destaque nos lançamentos que a indústria irá fazer ao longo desse ano (no Brasil a fabricação de TVs conectadas poderá responder por até 70% da produção de alguns fabricantes em 2011).

Uma coisa que minha geração aprendeu sobre o tempo é que ele “não para”, como cantava o poeta Cazuza. Também gosto de pensar no tempo como define o filósofo Santo Agostinho.

Para ele o tempo existia tão somente dentro de nossas mentes e em nenhum outro lugar mais. O tempo existe por causa de nossas consciências e só temos a capacidade de perceber e medir o tempo no momento em que decorre
Empurrar para o futuro as definições sobre o Ginga pode ser entendido como uma maneira de sinalizar para a sociedade de que esse tema não é tratado com seriedade e clareza.

É o que fizermos a partir de agora que vai determinar se a interatividade baseada no Ginga veio para ficar em nosso país, ou se vai entrar para uma cômica lista de “fiascos tecnológicos”, servindo de exemplo de incompetência e insucesso para as futuras gerações.

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